Nirina
colocou o capuz da capa preta sobre a cabeça antes de tomar o caminho que
entrava para a floresta. O clima em sua cidade geralmente era frio e ela
gostava de colocar a capa sobre suas roupas comuns para andar pelas estradas.
Embora não usasse os caminhos pela floresta com frequência por serem perigosos,
de vez em quando era preciso – eles eram mais rápidos do que pelas estradas que
não adentravam a floresta, chamadas estradas laterais. Havia sido advertida por
seu mestre para que não os usasse, mas ela às vezes desobedecia a suas ordens
mais comuns, e evitar esses caminhos era uma dessas.
Ela não se
sentia completamente desarmada contra os perigos de andar sozinha, no entanto.
Como a aprendiz já estava com seus quinze anos, seu mestre havia começado a ensiná-la
na arte de magias de água, que era seu elemento principal. A jovem aprendiz se
sentia feliz com a iniciação e, como era apaixonada pela magia, gostava de
dizer para seus amigos por aí que já era uma maga, embora seu mestre
frequentemente discordasse.
"Não
use sua magia para coisas corriqueiras" dizia ele. "Você ainda não
tem controle completo sobre seu poder e pode cometer erros nas conjurações.
Lembre-se: é preciso cautela". Nirina sorria ao lembrar as recomendações e
de como seu mestre era sábio. Ela achava que ele era, no entanto, cauteloso e
pensativo demais. Frequentemente ela o respondia com um "Eu já sou quase
uma maga, mestre", e ria. "Você não devia se preocupar tanto!" Ele,
no entanto, apenas balançava a cabeça negativamente com um sorriso e a deixava
ir, ciente de que a garota, no fundo, prestava atenção a seus ensinamentos.
Na metade do
caminho a seu destino, Nirina passava por uma clareira na floresta onde havia
uma pequena casa de madeira. A construção estava sempre fechada, observava, e
ninguém parecia morar ali. Ela sempre sentira uma vontade imensa de se
aproximar e entrar para explorar. Uma de suas maiores características era a de
ser curiosa: não havia nada de que Nirina não desconfiasse. Porém, sempre ouvia
sua voz interior, que lhe dizia "Não vá, Nirina. Deixe para depois".
Ela achava engraçado. Algo a dizia que era sempre mais prudente ouvir sua
consciência em vez de ignorá-la.
Dessa vez,
no entanto, quando passou pela casa, sentiu algo diferente. Não que ela
estivesse aberta ou que tivesse avistado um sinal de alma viva ali, mas assim
que olhou para a construção, seu coração acelerou. Passou olhando desconfiada
para o lugar enquanto ouvia sua voz lhe dizer "Direto para a casa do
mestre, Nirina." Como alguém advertido pela própria mãe, ela virou a
cabeça uma última vez para olhar para a clareira enquanto se distanciava.
Como a
clareira ficava exatamente na metade do caminho que ela tomava, não demorou
muito a se aproximar de seu destino. Satisfeita pela viagem sem contratempos, Nirina
teve a cautela de se embrenhar por alguns segundos na mata fechada para que
pudesse pegar a estrada lateral à floresta, assim seu mestre não a veria
chegando pela estrada que a havia proibido de usar. Assim que avistou seu
destino, ela apressou o passo e logo estava correndo. O dono da casa estava
sentado na varanda e, assim que a avistou, abriu o sorriso carinhoso digno de
um pai que sempre costumava usar com a aprendiz.
— Mestre! — ela disse, sem parar de correr, enquanto se
aproximava ainda mais.
— Acalme-se, Nirina— ele respondeu, observando a respiração acelerada
da menina e seu olhar afoito. — O que houve?
— Eu ouvi dizer na cidade que a maga clarividente
está voltando para o reino. Isso poderia ser verdade?
— Oh — disse o mestre em resposta, pouco surpreso. — Estava
mesmo me perguntando quanto tempo levaria até que você ouvisse as notícias.
— Então é verdade? Eu ouvi a família de Riana
conversando enquanto estávamos em seu quarto — ela levou os olhos até o chão por um instante, e
depois ergueu o olhar novamente ao homem a sua frente. — Acha que
algum dia eu terei a chance de conhecê-la? De pelo menos vê-la? Já seria o
suficiente.
O experiente
mago notou o tom triste no olhar de sua aprendiz e pôs a mão em seu ombro,
agachando-se a sua frente para que pudessem ficar do mesmo tamanho.
— Nunca se sabe o que pode acontecer nessa vida,
pequena Nirina. Sabe que Zahra é uma maga poderosa e muito ocupada, ainda mais
agora que o Rei tem planos para os magos que ainda habitam essas terras — respondeu,
olhando-a atentamente. — Não digo que é impossível acontecer, mas também não
possuo o dom de adivinhar o futuro para garanti-la de que seu sonho se
realizará.
Nirina
sorriu ainda um pouco triste enquanto o olhava e se surpreendeu um pouco quando
o olhar de seu mestre se tornou um pouco inquisitivo.
— Agora me diga — fez uma pausa de efeito, e então prosseguiu
enquanto se levantava e ficava em pé em frente à garota. — Como foi
sua viagem pela estrada lateral?
— Ótima, Arthus — disse, tirando o capuz que usava e cuidando para
não desviar o olhar enquanto mentia.
O mago
balançou a cabeça positivamente e a olhou de canto, e então Nirina teve certeza
de que ele sabia que ela mentia.
Assim que
ele se virou de costas para entrar para casa, ela o seguiu e os dois se
sentaram nos sofás da pequena sala de visitas, cômodo preferido de Nirina. O
lugar era iluminado por uma luz fraca durante a noite e durante o dia era ainda
mais bonito: o sol passava pelas cortinas de tecido fino, dando ao lugar um tom
alaranjado. Os sofás eram de madeira e tinham uma almofada vermelho-escuro por
cima para deixá-los mais confortáveis e não menos elegantes. Nirina sempre
adorara aquele lugar e era o seu preferido para ler.
Acomodados,
Arthus olhou para a aprendiz como se tivesse algo a dizer a ela. Nirina imaginou, a princípio, que seria sobre
as suas lições ou que ele diria alguma coisa sobre o fato de não estar
utilizando as estradas laterais, mas quando ele finalmente falou, ficou
surpresa ao perceber que não era nada do que estava pensando.
— Foi só isso que
você ouviu sobre Zahra? — perguntou, olhando-a fixamente.
— Sim, mestre —
respondeu, olhando-o curiosamente. — Havia algo a mais que eu deveria saber?
— Acho que gostaria
de uma notícia a mais que tenho para você.
Arthus sempre fora
estranhamente a par de tudo. Dificilmente havia um acontecimento que passava
despercebido aos olhos do experiente e atencioso mago. Nirina
frequentemente se perguntava se ele tinha alguém que trabalhava para ele, como
um espião, ou até mesmo se o próprio mago era o responsável pelas espionagens.
Ela ergueu uma
sobrancelha, como se o questionasse apenas com o olhar, e ele pareceu entender.
— O reino sabe que
Zahra voltará. Em minha opinião, seria melhor se o Rei mantivesse seu retorno
em segredo, mas ela está voltando com uma grande quantidade de soldados a
protegendo. Não que eu ache que ela precisa disso tudo, afinal, sua magia seria
o suficiente para se proteger, mas sabe como é o Rei. Ele adora exagerar.
— Acha que isso pode
prejudicá-la de alguma forma? É com isso que está preocupado?
— Não exatamente.
Acho que isso pode atrair a atenção de pessoas que não exatamente desejam o bem
a todos nós.
— O que quer dizer,
mestre? Quem poderia ser? — ela indagou, esperançosa de que ele lhe
respondesse. Uma esperança vazia.
— Deixe esse assunto
para depois. O que quero lhe dizer é que, graças ao capricho do Rei, você será
capaz de ver a procissão que acompanha Zahra chegando à cidade.
A notícia deixou Nirina em
silêncio por alguns instantes. Então ela sorriu, como se a compreensão do que
tivesse ouvido atingisse sua mente apenas segundos depois.
— E quando isso vai
acontecer? — disse, incapaz de esconder sua empolgação.
— Amanhã — Arthus
respondeu com um leve sorriso. — Pela manhã. Você devia acordar cedo e passar
na casa de Riana para irem juntas. Eu não poderei ser sua companhia.
— Com certeza farei
isso, mestre! — ela disse, levantando-se rápido enquanto Arthus a olhava
sorrindo.
A aprendiz percebeu
que estava com a boca seca, então foi até a cozinha e pegou um copo. Abriu a
torneira e sorriu ao contemplar a água, encheu o objeto e bebeu até que
estivesse satisfeita.
Incapaz de resistir à
vontade de praticar, estendeu uma das mãos enquanto a água escorria e fez com
que o elemento atendesse a sua vontade, tomando forma de esfera assim que ela
abriu a mão, ficando sobre sua palma. Ela se lembrou de fechar a torneira sem
se desconcentrar.
Observou atentamente
a água. Ela era completamente transparente. Fez com que ela rodasse levemente
em sua mão, depois a mudou de forma. Em vez de uma esfera, deixou-a fina como
uma lâmina e se perguntou quando seria capaz de usá-la como uma arma. Os olhos
de Nirina brilharam: ela sempre quis aprender a forma ofensiva de magia,
aspecto que seu mestre achava que era o menos importante de todos. Antes era
necessário aprender completamente a controlá-la e a conjurar água. Nirina se
lembrou de que ainda não sabia conjurar água: era necessário que ela
encontrasse uma fonte antes, então poderia manipulá-la.
Deixou, no entanto,
enquanto observava a água, que seus pensamentos flutuassem para o dia de
amanhã. Pensou em Zahra e se seria capaz de vê-la, nem que fosse de longe,
durante sua chegada. Pensou nas palavras de Arthus e no que poderia acontecer
no reino... Quando se assustou com o barulho de água caindo no chão. Ela olhou
assustada para baixo enquanto constatava que havia se distraído e perdido o
controle sobre o elemento.
— É isso que você não
pode deixar acontecer — disse Arthus.
Nirina se virou
rapidamente com uma de suas mãos ao peito, assustada. Respirou fundo e sorriu
timidamente para o mestre.
— Arthus — disse, sem
abandonar o sorriso. — Desde quando estava me vendo?
— Desde que ouvi a
água. Percebi quando seu olhar se perdeu, e então fiquei me perguntando se você
deixaria a água fugir de seu controle.
Com um movimento
rápido da mão, Arthus reuniu a água que estava no chão e então deixou que
caísse novamente quando estava sobre a pia. Nirina riu ao vê-lo usando a magia
de forma tão natural, como se fosse tão fácil quanto respirar. Ele invocou
novamente um pouco de água e fez com que ela flutuasse à frente do rosto de
Nirina.
— Ainda falta um
pouco de prática, Nirina, e você sabe em qual aspecto. Venho lhe dizendo todas
as lições.
— Sei — confirmou a
aprendiz. — Preciso ter consciência de que a água faz parte de mim. Tenho que
ter controle sobre ela como se ela fosse parte do meu corpo.
— Exato — disse
Arthus. — Quando praticar até ter essa consciência, seu progresso com a água
será fácil. Agora — acrescentou, dando-lhe tapinhas nos ombros enquanto fazia a
água despejar-se sobre a pia novamente — você deveria ler um pouco antes de ir dormir.
Sabe que ler é tão importante para um mago quanto afiar a espada é para um
guerreiro — sorriu — e hoje você passou a tarde toda na casa de Riana.
Nirina respondeu o
sorriso, assentindo com a cabeça, e se trancou em seu quarto, reunindo os
livros que seu mestre havia indicado. Abriu um deles e sentou sobre sua cama,
abrindo-o. Sentiu, no entanto, que não conseguiria se concentrar completamente
na leitura. Seus pensamentos continuavam imaginando o dia de amanhã, enchendo-a
de expectativas. Fechou os olhos e se jogou na cama, deixando o livro de lado,
encarando o teto.
Por um instante,
lembrou-se do que Riana lhe havia dito. “Que inveja de você”, dissera a amiga.
“Queria ter nascido uma maga, também”.
Nirina sabia que era
preciso ter sangue de mago para dominar um dos elementos. Era algo que sempre a
fazia tentar imaginar quem foram seus pais. Ela vivia perguntando a Arthus, mas
ele dizia que não tinha informações para ela e que ela teria que pesquisar em
outras fontes, se pudesse. Assim, quem sabe, encontraria algo sobre seus pais.
A aprendiz se
perguntava qual dos dois eram magos: seu pai ou sua mãe? E se os dois tivessem
sido magos? Isso seria legal, ela
pensou. Filha de magos. Sentiu seu coração doer um pouco quando lembrou que seu
nome significava “água”. Talvez sua mãe fosse uma maga de água também e,
sabendo que a filha dominaria o mesmo elemento, teria lhe dado esse nome.
Depois pensou em Riana. Ela parecia feliz com
sua família, mas algo no olhar de Riana deixava Nirina inquieta: ela sempre
tinha um tom insatisfeito, como se algo faltasse em sua vida. A jovem maga se
perguntou se podia ser a falta do dom para magia. Achou que a amiga fosse ficar
feliz em ir à chegada de Zahra, no entanto. Esfregou os olhos e sorriu
novamente. Sentia que mal conseguia conter a excitação e queria dormir rápido
para que amanhã não demorasse a chegar.
Porém, quando deixou
o livro de lado e estendeu os lençóis sobre a cama para se deitar, o que pensou
que aconteceria se concretizou: ela não conseguia pregar os olhos, sentindo a
inquietação crescer. Ficou imaginando Zahra com suas lindas túnicas e seus
colares, imaginava-a uma mulher bonita e poderosa, que poderia ser reconhecida
como uma maga em qualquer lugar, mas sabia que podia estar fantasiando demais e
que ela poderia ser uma mulher mais comum. Apertou os olhos e virou de lado,
torcendo para que o sono chegasse logo.
Infelizmente para
Nirina, ela passou horas acordada até que conseguisse, finalmente, adormecer.
Nenhum comentário:
Postar um comentário