Nirina levantou
assustada pela manhã, como se despertada por uma força exterior que a fizesse
acordar. Pulou rápido da cama e se espreguiçou. Apesar de ter dormido tarde,
não conseguia sentir sono. Esperava que Riana acordasse cedo também, assim as
duas poderiam se encontrar e partir rápido para o centro de Ima onde, com
certeza, a procissão de Zahra passaria.
Vestiu uma calça
preta e uma de suas túnicas preferidas. Não era comprida – ia até a metade de
suas coxas e era amarrada por um laço à cintura. A túnica e o laço eram da
mesma cor: anil. Azul sempre fora sua cor preferida e ela achava que isso tinha
a ver com a água. Nirina era fascinada pela magia e qualquer coisa que tivesse
a ver com magos. Sentia-se feliz por ter nascido uma deles e estava ansiosa por
ser tão experiente e habilidosa quanto seu mestre, que era sua principal
referência.
Assim que saiu de seu
quarto, Arthus já estava em pé na cozinha e a mesa do café da manhã estava
posta. Nirina sorriu e cumprimentou-o com uma reverência singela, cheia de respeito.
Arthus reverenciou-se a ela também, e ela sorriu. A aprendiz sempre sorria
quando o mago a tratava do mesmo jeito.
— Bom dia, Arthus! —
ela disse, com uma empolgação impossível de não perceber.
— Bom dia, Nirina —
ele respondeu enquanto ela se sentava. Pegou uma xícara de chá e a serviu,
deixando à frente da aprendiz. — Empolgada, não?
— Muito — ela
respondeu, pegando a xícara e tomando um pouco de seu conteúdo. Parou um pouco
e olhou fixamente para o líquido. Como uma maga da água, ela conseguia manipular
qualquer coisa que fosse feita com água em estado líquido.
— Nada de brincar de
magia com o chá — disse Arthus, ao perceber que ela olhava para o líquido com
um sorriso travesso. — Vamos. Tome seu café da manhã e prepare-se para ir à
casa de Riana, ela estará esperando por você.
— Como assim? —
indagou Nirina — Ela sabe?
— Contei a ela que
você gostaria de ter sua companhia há uns dias.
— Há quanto tempo
você sabe da chegada de Zahra?
— Há uns dias — foi a
resposta evasiva que recebeu.
— Certo...
Nirina assentiu
enquanto tomava mais do chá e pegava uma fatia de pão. Arthus gostava de
cozinhar, e geralmente era ele quem preparava os pães. A aprendiz se perguntava
onde ele teria aprendido tantas habilidades.
— Tem certeza de que
não quer ir?
— Não poderei —
respondeu. — Eu vou preparar suas próximas lições.
Nirina assentiu e
terminou o pedaço de pão que pegara, e tomando o último gole de chá.
— Vou reunir minhas
últimas coisas e estou indo, mestre.
— Devo lhe pedir para
usar as estradas laterais?
— Não, senhor — ela
balançou a cabeça negativamente, olhando-o com atenção. Arrumou a ponta da
túnica distraída enquanto esperava para ver se ele tinha mais alguma coisa para
falar.
— Lembre-se de comer,
e tome cuidado, especialmente com a sua magia. Sei que posso confiar em você.
— Deixe comigo,
senhor!
Com um aceno
energético, Nirina se pôs a correr até seu quarto para juntar algumas coisas.
Pegou uma bolsa atada a um cinto, que amarrou à cintura e deixou à lateral do
corpo por baixo da túnica, imperceptível. Quis levar pouca coisa para que não
cansasse de carregar, portanto, basicamente colocou dentro dela a chave da casa
onde morava e seu dinheiro e a fechou, apressada. A imagem que tinha de Zahra
passou por sua cabeça novamente e ela sorriu, andando até a porta. Arthus olhou
para a aprendiz e se despediu dela com um aceno de cabeça. Reverenciando-se em
resposta, atravessou a porta e tomou as estradas laterais, como seu mestre
havia pedido.
A viagem pelas
estradas laterais era comum e entediante. Não havia nada de diferente no
caminho exceto a floresta que a rodeava, mas, ainda assim, a floresta passava
longe da estrada. Uma cerca de arame de mais ou menos um metro e sessenta a
impedia de adentrar a mata, e ela sentia mais emoção viajando pelas estradas
que passavam pelo meio das árvores. Mas Arthus não gostava disso, ela sabia e,
portanto, não quis desobedecê-lo em um dia tão importante.
Quando chegou à
metade do caminho pela estrada lateral, lembrou-se da pequena casa de madeira
na clareira que sempre avistava quando pegava uma das estradas que conhecia.
Imaginou se algum dia teria a oportunidade de entrar para explorar ou se algum
dia chegaria a saber para que ela foi construída.
Distraída e perdida
em seus pensamentos, chegou à cidade sem muita demora. Assim que passou pelo
portal de entrada, esperou que a população de Ima estivesse agitada e esperando
por um grande evento, mas não encontrou nada disso. O ritmo da cidade parecia
normal e, apesar de estar perto das sete horas da manhã, os comerciantes e
trabalhadores agiam normalmente. Nirina ergueu uma sobrancelha e se perguntou
se eles sabiam que Zahra estava para chegar.
Talvez eles não deem tanta importância para magia
ou magos tanto quanto eu, pensou
consigo. É uma possibilidade.
Passando pelas ruas
principais, tomou o caminho da casa de Riana. Assim que se aproximou, encontrou
a mãe da amiga, que a recebeu de forma simpática e disse que sua filha a
esperava. Despediu-se da mãe com um aceno da cabeça e entrou na casa, correndo
até o quarto de Riana.
Encontrou-a se
arrumando. Riana era uma menina bonita, mais alta que Nirina por ser alguns
anos mais velha, mas não só isso. Ela crescia rápido e já tinha corpo de
mulher, diferente de Nirina, que ainda tinha uma aparência de menina. Riana
tinha o cabelo liso e comprido até a cintura, loiro, e a pele clara
caracterizando uma menina nascida no país de Earine. A moradora da casa sorriu
ao encontrar a jovem maga e a abraçou rapidamente, não menos animada.
— Então — começou
Riana — Arthus me disse que você gostaria da minha companhia para ver a maga
clarividente voltar à cidade. Acha que vai conseguir vê-la?
— Não sei — admitiu
Nirina. — Embora ela não esteja chegando em segredo, não acho que ela vai estar
em cima de um palanque ambulante acenando para toda a cidade.
Riana riu diante da
observação de Nirina, achando graça ao tentar imaginar a cena.
— Também não acho que
vá acontecer. Ouvi poucas pessoas falando sobre isso na cidade — ela
acrescentou.— É como se eles não achassem importante, ou sentissem algum tipo
de medo. A maioria das pessoas acha que trouxeram a clarividente de volta
porque o reino corre perigo. Acha que é isso?
— Não acho —
respondeu. — Talvez o Rei esteja querendo novas conquistas e queira a ajuda
dela. Não sei bem o que uma maga clarividente faz a serviço do reino, mas pode
ser isso. Se houvesse ameaça, acho que saberíamos. Sabe que as notícias correm,
não importa onde comecem.
— Bem, isso é
verdade. — Riana passou a mão pelo cabelo, arrumando-o. Ela usava um vestido
verde longo, que descia até os tornozelos. Tinha as mangas compridas por causa
do frio da manhã. A peça era justa até a cintura e então descia solta, dando um
charme especial à beleza da moça. — Sabe a que horas ela passará pelo centro?
— Arthus me disse que
seria pela manhã, então não deve demorar — ela disse, observando a amiga
assentir com a cabeça.
— Devemos ir então? —
perguntou, passando as mãos pelo vestido mais uma vez.
— Acho melhor. Duvido
que terei outra oportunidade de chegar tão perto de Zahra.
— Você é mesmo
fascinada por essa maga, não é? — Riana acrescentou, com um sorriso comovido.
— Sou. Queria ser
como ela — disse. — Imagino tanto das histórias de Arthus...
— Continue
praticando. Quem sabe um dia!
Riana riu
inocentemente enquanto saía do quarto e era seguida por Nirina, que andava
atrás da amiga aos pulos. Passaram novamente pela mãe da garota na saída, que
acenou para as duas e desejou que tomassem cuidado. Ambas assentiram e seguiram
em direção ao centro da cidade, esperando que o clima continuasse agradável. O
sol brilhava forte, mas o céu tinha algumas nuvens. O vento era frio e ambas
agradeceram por estar usando roupas adequadas. Nirina falava sem parar,
especialmente sobre magia, enquanto Riana apenas ouvia e assentia a tudo em
silêncio.
Assim que chegaram ao
centro, não encontraram nenhuma movimentação diferente do normal. Decidiram, à
sugestão de Riana, tomar uma bebida em um estabelecimento da avenida principal,
onde Nirina estava quase certa de que Zahra passaria. Fizeram o pedido no
balcão e foram se sentar às mesas de fora para que pudessem ter uma melhor
visão do que estava prestes a acontecer.
As duas conversavam
animada e distraidamente até que Riana, de repente, manteve o olhar fixo em um
ponto atrás de Nirina. A jovem maga olhou para a amiga com um olhar
questionador e tocou sua mão com a ponta dos dedos.
— Riana? — perguntou,
olhando para trás em seguida, para onde os olhos de Riana pareciam estar fixos.
Pensou que poderia ser a clarividente e sua escolta, mas quando virou, não viu
nada de diferente. Em seguida, olhou para a amiga novamente. — O que foi que
você viu?
— Nada — balançou
negativamente a cabeça, sentindo o rosto corar.
Nirina sorriu.
— Riana, diga, por
favor!
— Ah, Nirina! —
protestou a amiga, abaixando o olhar. — Eu só vi um homem bonito, certo? Quando
você olhou para trás ele já tinha virado a esquina.
— Sério? — disse
Nirina, sorrindo e olhando animada para Riana. — É sorte sua eu não ter visto o
homem.
— Por quê?
— Porque se eu
tivesse visto quem era, teria ido até lá e te apresentado a ele.
Riana deu um tapa na
mão de Nirina, claramente em protesto.
— Você não teria
coragem de fazer isso!
— Quer apostar?
Riana manteve-se em
silêncio, como se estivesse em dúvida por alguns segundos. Depois ergueu o
olhar à aprendiz e sorriu sem jeito.
— Não. Sei que você é
sem noção pra essas coisas. Às vezes me pergunto se você não é meio maluca.
— Riana!
A loura começou a rir
da expressão de indignação da morena, mas foi por pouco tempo. Logo ela se
retesou na cadeira e apontou para trás de Nirina, fazendo-a se virar.
— Olhe! Vários
soldados e carruagens... Deve ser Zahra.
— Vamos mais perto da
rua.
Assentindo com a
cabeça, Riana seguiu a jovem maga até a rua e as duas esperaram, ansiosas, até
que os soldados se aproximassem mais.
As garotas ficaram
paradas esperando que a caravana passasse e, conforme os soldados montados em
cavalos iam passando, as pessoas na rua iam abrindo espaço. Ao longe Nirina
pode ver uma carruagem e esperou ansiosamente até que o veículo se aproximasse.
Quando isso
aconteceu, no entanto, ela se encheu de uma grande decepção. As duas janelas do
veículo estavam fechadas e a jovem maga nem mesmo pode ter certeza se era
realmente Zahra quem estava ali dentro. Ela acompanhou a carruagem com
crescente tristeza enquanto o veículo ia embora e mais soldados montados
seguiam a procissão. Nirina tocou o braço de Riana quase inconscientemente e
abaixou o olhar.
— Tudo bem, achei que
pelo menos fosse conseguir ver ela... Ou ter certeza de que ela passou diante
de mim.
Diante do silêncio da
amiga, a aprendiz ergueu o olhar a ela.
— Riana? O quê
você...
Quando Nirina olhou
para Riana, ela estava olhando através dos soldados montados, para o outro lado
da rua. Logo a maga constatou que ela devia estar encarando alguma pessoa.
— É ele. O homem de
antes.
Assim que Riana
indicou quem era, Nirina olhou para o desconhecido. Ele estava com o olhar fixo
na carruagem que acabara de passar, enquanto as pessoas a sua volta já tinham
se distraído e se ocupavam com outras coisas. A maga manteve os olhos no
estranho, mas, quando seus olhares se encontraram, ele virou o rosto rápido e
saiu andando. Nirina sentiu o coração acelerar. “Não vá atrás dele”, disse-lhe
sua consciência. Mas, diferente da maioria das vezes, ela ignorou o conselho da
voz e virou-se para Riana.
— Espere aqui, eu já
volto.
— Nirina, não! Nem
pense em...
— Calma, não farei nada do que está pensando —
disse, acenando em despedida.
Riana decidiu se sentar
às mesas do estabelecimento mais próximo enquanto esperava sua amiga voltar. Suspirou
enquanto passava as mãos pelo cabelo, perguntando-se o que ela tinha ido fazer.
Espero que não seja nenhuma besteira.
Nirina não precisou
dar a volta nos cavaleiros, visto que eles não eram assim tão numerosos e a
carruagem já seguia longe. A aprendiz atravessou a rua sem correr, mantendo os
olhos fixos no estranho que perseguia e torceu para que ele não se virasse. Seguindo
as expectativas da maga, ele não se virou. O máximo que fez foi virar o rosto
para olhar para as lojas laterais, e continuou seguindo seu caminho como se
nada de incomum o esperasse.
O homem estava um
pouco à frente de Nirina quando virou uma esquina. Assim que a aprendiz
alcançou a mesma curva, assustou-se ao perceber que o estranho havia
desaparecido. Ela franziu a testa quando observou que era uma rua sem saída,
terminando em um beco.
Não teria dado tempo de ele ter corrido essa rua
toda até pular o muro pensou. Ele deve ter se escondido, meditou.
Quando começou a olhar para os lados, algo dentro de si a alertou: Em cima de você. Erguendo o olhar, no
entanto, ela não foi capaz de ver nada nem ninguém nos telhados das lojas ao
lado.
Nirina olhou para o
chão. Um mago de ar? Era a única coisa
em que conseguia pensar. Os magos de ar eram os que mais facilmente conseguiam
levitar, afinal, o ar é um dos elementos mais abundantes de que um mago poderia
dispor. Apesar de uma técnica muito difícil que exigia grande controle, magos
experientes conseguiam. “Quem é esse homem?” era o que Nirina perguntava a si
mesma a cada momento. Ela nunca tinha estabelecido grande contato com outros
magos.
Existiu um tempo em
que havia uma Escola para Magos em Verena, país ao sudeste de Sira, mas há tempos
a escola havia sido desativada por ter poucos alunos. Os magos restantes
aprendiam com seus mestres em lugares separados, geralmente sem despertar muito
o interesse das pessoas ao redor e da Corte, como Nirina tinha suas aulas com
Arthus.
Ela nunca havia visto
outro mago e, pelo jeito, aquele era um dos experientes. Ela não o tinha visto
flutuar, mas era o mais provável que tivesse acontecido. Afinou os olhos e
desejou pelo menos saber seu nome. Apertou as mãos, decepcionada, e decidiu
voltar para junto de Riana.
Andou devagar até
encontrar a amiga perto das mesas onde haviam tomado a bebida mais cedo.
Observou, no entanto, que ela não estava sozinha: ele estava com ela. O
estranho. Nirina entrou em estado de alerta, mas os dois pareciam conversar
cordialmente. Quando Riana viu Nirina, apontou em sua direção e o homem a
olhou. Sério, sem manifestar emoção alguma, ergueu as mãos e, sem parecer ter a
menor dificuldade, levantou-se do chão. Riana se assustou e se afastou, bem
como a maioria das pessoas em volta – algumas não deram a mínima para o pequeno
espetáculo – e a aprendiz arregalou os olhos.
Ainda em estado de
alerta, continuou olhando para cima enquanto o mago se elevava com velocidade e
desaparecia sobre os telhados. A jovem aprendiz se virou para a amiga, que
ainda estava um pouco assustada com a saída repentina do mago de ar.
— Sobre o que vocês
falavam, Riana?
— Achei estranho —
ela respondeu, olhando para cima. — Ele perguntou sobre você.
— Sobre mim? — Nirina
olhou para cima por um instante, depois voltou o olhar à amiga. — Então ele
percebeu que eu o estava seguindo? Mas ele não deu sinais de ter percebido!
— Ele não te olhou
nenhuma vez?
—Não — pausou. — O
que ele perguntou sobre mim?
— Seu nome — disse
Riana, olhando para baixo apreensiva.
— Você respondeu?
— Sim... Desculpe, eu
não imaginei que isso pudesse lhe causar problemas.
— Não estou dizendo
que vai. Ele perguntou mais alguma coisa?
Riana olhou para cima
novamente e depois para o chão antes de encarar Nirina.
— Não, nada. Agora —
acrescentou, como se quisesse mudar de assunto — deixe-me perguntar: por que
foi atrás dele?
— Algo... Algo me
disse pra não ir, na verdade. Mas senti uma energia estranha emanando dele,
então decidi persegui-lo.
— Algo? O quê? —
Riana franziu a testa, sabendo que isso era mais uma das coisas de mago. — E
que energia estranha?
— Algo como minha voz
interior — respondeu, apertando as mãos. Por um instante, havia esquecido
completamente de Zahra e a decepção por não ter conseguido encontrar a maga
clarividente. — Me disse pra não ir, e eu geralmente obedeço essa voz. Dessa
vez, decidi ignorar. Quanto à energia, não sei. Eu devia perguntar a Arthus.
— Não acho que isso
seja um bom sinal.
— Talvez, Riana.
A garota de Earine
olhou em volta, então tocou o ombro da amiga levemente.
— Vamos? Deveríamos
almoçar na minha casa e então você deveria voltar à casa de seu mestre.
— Acho uma boa ideia.
No caminho de volta,
Riana percebeu que Nirina estava estranhamente quieta, algo incomum para a
personalidade da garota que era sempre falante, praticamente o tempo todo.
Decidiu que seria melhor se não dissesse nada, afinal, sabia que a aprendiz
estava pensando no outro mago que havia encontrado na cidade.
Qual era o objetivo
dele observando Zahra era o que mais passava pela cabeça de Nirina. E como ele
havia percebido que estava sendo perseguido tão fácil... A jovem maga mordeu o
lábio inferior e pensou que deveria tomar mais cuidado quando quisesse espionar
alguma coisa ou alguém, mas aprenderia. Caminhou o tempo inteiro em silêncio
enquanto pensava no que havia acontecido e nas perguntas que faria a Arthus
quando chegasse em casa.
Nirina almoçou em
silêncio, falando o mínimo possível, absorta em seus pensamentos. Riana às
vezes olhava-a com preocupação, mas sabia que a amiga estava pensando no que
havia acontecido. Lembrou-se que ela podia estar, além de tudo, decepcionada
por não ter encontrado Zahra.
— O que pretende
fazer essa tarde, Riana? — perguntou Nirina enquanto era acompanhada até a
porta pela anfitriã da casa.
— Eu tenho um
compromisso — respondeu e, após hesitar um pouco, sorriu. — Por que pergunta?
— Iria te chamar pra
ir à floresta comigo hoje à tarde. Tem algo que eu gostaria de ver.
— À floresta? —
repetiu Riana, rindo com um desinteresse ensaiado. — O que teria de mais para
ver na floresta?
— Uma casa de madeira
esquecida em uma clareira — disse. — Sempre quis entrar, e achei que você
pudesse compartilhar da mesma curiosidade que eu quando a visse. É suspeita.
Tem uma aura diferente.
Riana riu.
— Você precisa
encontrar outro amigo mago rápido, Nirina. Sinto muito, mas provavelmente eu
não estaria tão curiosa e muito menos sentiria essa aura estranha. É melhor
você ficar longe de lá. Além disso — acrescentou — Arthus não te proibiu de
usar as estradas da floresta?
— É — Nirina olhou
para o chão por um instante, depois riu como se desculpasse. — Não vai dizer a
ele que eu vou à casa de madeira entre a floresta hoje, vai?
— Claro que não. Não
faria isso com uma amiga — respondeu, em tom afável. — Mas se seu mestre lhe
diz, você devia ouvir. Fique longe da clareira e das florestas.
— Até você, Riana? —
bufou. — Você também me dando ordens.
Riana sorriu e juntou
as sobrancelhas expressando preocupação. Uniu as mãos em frente ao corpo e se
desculpou com uma inclinação da cabeça.
— Viaje com cuidado.
Vá pelas estradas laterais.
— Até mais, Riana —
foi a única coisa que Nirina respondeu.
Pensou em passar
direito na clareira quanto estivesse voltando à casa de Arthus, pegando as
estradas da floresta. Lembrou, no entanto, que estava sem sua capa e o capuz
que ela tinha seria bem útil se quisesse dificultar seu reconhecimento. E se
encontrasse alguém na casa? Algo lhe dizia que isso aconteceria.
Decidiu que iria para
casa antes e conversaria com Arthus sobre o que aconteceu na cidade. De
repente, lembrou com pesar do que aconteceu na chegada de Zahra e a
oportunidade que perdera. O que será que Arthus diria a ela? Nem ao menos tinha
certeza se era Zahra quem havia chegado, mas julgando pelo tanto de cavaleiros
ao redor, provavelmente era.
Observou preocupada
que o tempo estava se fechando e provavelmente choveria. Pensou em pegar as
estradas da floresta que eram mais rápidas, mas, ao lembrar-se de Arthus, não
conseguiu desobedecê-lo.
Andou o mais rápido
que pode, mas não foi capaz de chegar em casa sem pegar chuva. Respingava fria
em seu rosto e a fazia lembrar-se da magia que corria em suas veias. A água a
molhou inteira, mas era uma sensação boa, até que o vento começou a soprar mais
forte. Nirina começou a sentir frio, sua pele arrepiou e ela desejou que a
viagem terminasse logo. Sentindo o vento, lembrou mais uma vez o mago de ar que
encontrara na cidade e a energia estranha que ele emanava. Esperava que Arthus
tivesse respostas.
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