Nirina
olhou para Arthus carinhosamente, imaginando que não queria ficar longe dele.
Mas assim seria melhor, disso ela tinha certeza. Seu mestre imaginava que devia
explicações a ela.
—
Você precisa de um novo mestre, Nirina — disse. — Não há como você continuar
aqui sem treinar as habilidades que vem desenvolvendo.
—
Por que não? Há algo que pode acontecer? — indagou. Ela sabia pouco sobre
magia, afinal, havia iniciado seus estudos na área havia pouco tempo.
—
Lembra que você disse que havia visto que um pedestre deixaria a sacola cair, e
você acertou? — Nirina assentiu, encorajando-o a continuar. — Essas visões vão
ficar cada vez mais comuns, e isso não é bom. Um mago clarividente experiente
pode controlar essas visões. Se você não puder fazer isso, elas vão ficar tão
frequentes que você não vai conseguir andar na rua sem visualizar os próximos
acontecimentos com todas as pessoas a sua volta.
A
aprendiz mordeu o lábio inferior, tentando imaginar como isso seria.
—
Depois de um tempo, você pode até mesmo ouvir as vozes das pessoas em sua
cabeça, prevendo o que elas diriam. Isso te impediria até mesmo de ir à cidade
fazer compras. Resultaria em uma terrível dor de cabeça e você pode imaginar
como isso te manteria incapaz de realizar qualquer outra atividade: sua mente
estaria completamente focada em continuar as visualizações.
Nirina
mordeu o lábio inferior, pensativa.
—
Quanto tempo isso leva para acontecer?
—
Não tem como definir — disse. — Depende muito do mago. Alguns levam apenas
dias, outros, meses, até mesmo anos. Mas eu não sei quanto tempo vai demorar
com você, e é melhor que eu tome uma decisão, rápido.
—
Certo, Arthus — respondeu, balançando a cabeça positivamente.
—
Nirina — disse, fazendo-a olhar para ele. — Você não parece muito feliz com a
descoberta de seu dom.
—
Eu estou — falou, sendo sincera. — Realmente estou. Só não me agrada a ideia de
ter que ficar longe de você.
—
Eu vou te visitar. Não terá problema.
—
Onde vou ficar?
—
Provavelmente terá que morar na Corte.
—
Você vai avisar o Rei? — perguntou, erguendo uma sobrancelha.
—
Sim, Nirina. Assim que eu puder.
A
aprendiz apertou as mãos nervosamente. Não conseguia parar de pensar na energia
que havia sentido do mago de ar desconhecido na cidade. Queria saber o que ele
era. Imaginou, no entanto, que não era uma boa hora para perguntar e suspirou
cansada. Havia acontecido muitas coisas naquele dia, e essa pergunta poderia
esperar até o dia seguinte.
—
Acho que vou me banhar, Arthus — disse. — Preciso relaxar.
—
Tudo bem — disse o mago, levantando. — Vou preparar algo para comermos.
Ela
assentiu e se levantou também, agradecendo. Andou até o quarto devagar, olhando
pela casa e pensando que não queria sair dali. De repente, balançou a cabeça,
como se quisesse espantar todos aqueles pensamentos. Não tinha certeza de seu
futuro, portanto não devia ficar se questionando tanto.
Quando
chegou à porta do quarto, no entanto, algo veio à sua mente como um raio. Se
ela era uma aprendiz de maga clarividente, precisaria de um mago clarividente
para lhe ensinar. Sabia quem era a clarividente mais próxima. Sentiu o coração
acelerar ao considerar a possibilidade de ser a nova aprendiz de Zahra e se
surpreendeu ao reparar como havia demorado em perceber o fato.
—
Entendi — disse Ian, diante da revelação de Riana. — Quer dizer que Nirina
suspeita dessa casa? Como se sentisse uma energia diferente vinda dela, e que
tem uma... Aura diferente?
—
Foi o que ela me disse na cidade hoje — respondeu a garota.
—
Tudo bem. Conversarei sobre isso com Hazael daqui a pouco. Agora — sentou-se em
uma cadeira do lado de Riana e abriu os braços — como Hazael disse, vou te
dizer tudo sobre a magia negra — encarou o amigo, afinando os olhos. Este, por
sua vez, recebeu o olhar com indiferença e se espreguiçou mais uma vez.
Riana
olhou para Ian com uma empolgação evidente, pois o mago percebeu e abriu um
sorriso.
—
A magia negra muitas vezes é vista com maus olhos porque utiliza sangue em sua
conjuração — começou Ian, atento às expressões de Riana. Percebendo que ela
reagiu com naturalidade ao ouvi-lo falar de sangue, prosseguiu. — Você tem medo
de se cortar? Pois é necessário que se corte para poder executar a magia com seu
próprio sangue. Diferente do que as pessoas pensam, que o sangue é parte de um
processo ritualístico ou de um sacrifício, isso só dará à criatura invocada a
noção de quem é seu “mestre”, a quem ela deve obedecer.
Riana
assentiu, sinalizando a Ian que estava entendendo tudo. Agora ela se perguntava
que tipo de criaturas seriam invocadas.
—
Tudo bem — disse ela, entrelaçando os dedos das mãos e apertando-os
nervosamente. — É preciso cortar minha mão e o que além disso?
—
Você é meio impaciente, não é, Riana? — disse Ian, rindo. Ela se encolheu
novamente, como se tivesse perdido toda a coragem de falar. — A questão mais
difícil de invocar os espectros e que exige um pouco de prática é o pensamento.
Você não precisa dizer nada. Não precisa recitar. Mas deve desejar, de todo o
seu coração e sua mente, que deseja que um espectro atenda às suas vontades.
Riana
mordeu o lábio inferior discretamente quando percebeu que Hazael olhava para si
de forma fixa. Então espectros seriam invocados...
—
Eu... — começou a nova aprendiz, percebendo que sua boca estava seca. — Eu sei
que isso soa inconveniente, mas eu posso pedir uma demonstração?
Ian
riu e, sem dizer nada, saiu do cômodo por alguns segundos. Depois, voltou com
uma faca.
—
Não existe receita para conseguir invocar um espectro. Eu não posso lhe dizer
as palavras em que você deve pensar, e você só conseguirá quando não tiver
dúvida alguma de que deseja que ele venha. Vou mesmo demonstrar. Deve ser mais
fácil que explicar.
—
Ele simplesmente...
Riana
interrompeu a fala quando percebeu que Ian havia feito um corte na palma da mão
direita e que agora juntara as duas, entrelaçando os dedos, deixando-as
completamente próximas e que havia fechado os olhos. Com a cabeça abaixada, ele
manteve-se assim por alguns segundos até que a aprendiz pode ver uma fumaça
preta deixando as mãos de Ian.
Sem
muita demora, ela foi se tornando mais espessa. Logo a magia havia tomado a
forma que ela esperava que tomasse: parecia um fantasma com uma capa preta por
cima, usando um capuz sobre a cabeça, impossível de ver o rosto, ocultado por
uma escuridão que parecia infinita. Ao mesmo tempo em que ele tinha a forma de
um humano, ele não parecia ter corpo, e ela se perguntou se poderia tocá-lo.
Observou,
surpresa, quando Ian abriu as mãos, que seu corte estava cicatrizado e nenhuma
marca existia. Riana arregalou os olhos e Ian sorriu.
—
Olhe, eu sei que parece fácil, mas não é. Você provavelmente não vai conseguir
na primeira tentativa, nem nas seguintes. Talvez na quinta ou sexta se você
estiver disposta a sentir dor várias vezes. Diante disso, tem outro detalhe:
não importa o instrumento que você usar para o corte, você mesma deve causar a
dor em seu corpo. É uma exigência, como se fosse um preço: você é obrigada a
pegar uma faca e se cortar. Se outra pessoa o fizer, você jamais conseguirá
invocar.
Riana
sentiu seu corpo arrepiar diante do último ensinamento de Ian. Era um tanto
sinistro, mas parecia justo. Inúmeras perguntas inundavam sua cabeça, no
entanto.
—
Eu tenho várias perguntas — disse, olhando para o espectro em vez de olhar para
seu mestre.
—
Pois as faça todas! — respondeu o invocador.
—
Para que essas criaturas são úteis?
—
Para várias coisas, Riana — disse Ian, um tanto evasivo — mas para uma em
especial: enfrentar magos clarividentes.
Riana
manteve-se em silêncio. A primeira coisa que veio em sua mente foi Zahra, a
clarividente do reino. Em seguida, pensou inevitavelmente em Nirina e se
perguntou como a amiga estaria depois da decepção de não ter conseguido vê-la.
—
Não entendo — foi sincera. — Não sei nada sobre magia, talvez você precise me
ensinar mais que só magia negra.
—
Os magos clarividentes — começou Ian, notando que o olhar de Hazael havia ficado
um pouco menos entediado — são difíceis de serem derrotados. Eles conseguem
prever com certa antecedência os acontecimentos que os põe em perigos e, apesar
de isso exigir um monte de treinamento, dificulta bastante para seus inimigos.
É claro que isso não é o suficiente para que um clarividente seja duro na
queda: ele precisa ter um bom controle do seu elemento principal para se
defender dos ataques que previr, ou isso não adiantará de nada. É preciso ter
uma boa noção de combate corpo-a-corpo caso queira se sair bem em lutas. Mas —
pausou, adicionando um pouco de desprezo à própria voz — a maioria dos magos
clarividentes se contentam em se trancar em um quarto ao lado da cama do Rei e
sussurrar em seu ouvido os acontecimentos preocupantes. Isso é ridículo — disse
Ian, afinando os olhos. — É um comportamento totalmente repugnante.
—
Isso porque você não é aliado do Rei — interrompeu, finalmente, Hazael, com um
sorriso sarcástico. — Não os despreze, Ian, eles têm lá seu mérito. Conseguiram
nascer com o dom e isso é tudo — o sarcasmo na voz de Hazael era mesmo
interminável. — Em suma, Riana, dificilmente você vai achar um clarividente
andando por aí ou lutando com outros magos. Eles, como Ian disse, adoram ficar
recolhidos, achando que são importantes para o Reino quando são importantes
apenas para o Rei, na verdade.
—
Por que os espectros contra eles?
—
Os espectros não têm mente, Riana — disse Ian. — Os clarividentes sabem dos
acontecimentos muitas vezes por conseguirem ler a mente dos seus inimigos. Os
mais experientes optam por essa opção, pois não precisam ser convidados à mente
de alguém para que possa ter acesso aos pensamentos superficiais. Tudo o que é
pensado por seu inimigo em uma batalha, ele sabe. Embora eles sejam raros, se
mais magos clarividentes estivessem dispostos a treinar, poderiam conquistar
Sira, Earine, Verena e todos os países restantes.
—
Tenho outra pergunta — disse a aprendiz. — Usar meu sangue é o único ponto
negativo da magia negra? — Olhou para o espectro novamente, sem esquecer que
ele ainda estava ali.
—
Não, ainda bem que você lembrou, cara aprendiz — respondeu Ian, sorridente. —
Você pode controlar seu espectro com simples pensamentos que os deem comandos —
com facilidade, fez com que seu espectro se aproximasse de Riana. Ela se
encolheu um pouco, um tanto assustada. — Não precisa ter medo. Ele está
totalmente sob meu comando — fez com que a criatura invocada voasse em volta de
Riana. Ele flutuava e tinha os formatos dos braços, mas não das pernas, que
eram substituídas por uma fumaça escura deixando a túnica preta.— Você deve
estar se perguntando “Qual é a parte ruim disso?” A parte ruim é que tudo o que
acontecer no espectro que você invocou, se reflete em você.
—
Como assim? — perguntou a garota.
—
Bata no espectro — disse Ian à Riana.
Ela
se encolheu novamente, hesitante. Fez que não com a cabeça e olhou para Hazael
assim que ele se levantou rápido.
O
mago de fogo se aproximou da criatura invocada e, com a mão fechada, deu um
soco onde provavelmente seria o rosto do espectro. A criatura não fez nada além
de virar a cabeça com a força do golpe e depois voltá-la à posição normal. Ian,
por sua vez, havia gemido alto e dado alguns passos para trás após sentir a dor
atingir seu corpo. Hazael achou graça no olhar aterrorizado de Riana.
—
Você não adora demonstrações? Aí está outra — ele riu e, para a surpresa da
aprendiz, seu mestre estava sorrindo também. — Cansei de ser expectador das
aulas. Eu vou andar pela floresta — acrescentou, pegando uma faca e atando-a ao
cinto que usava por cima das roupas. Se precisasse se defender seria melhor não
botar fogo ao seu redor. — Logo estarei de volta.
Hazael
deixou a casa e fechou a porta enquanto Ian se recuperava, massageando a
mandíbula.
—
Que droga, ele é bem forte pra um mago. Fazia tempo que eu não sentia isso —
disse, com um sorriso sem graça.
—
Você não está bravo?
—
Por quê? Por causa de Hazael? — Riu. — Não. Ele é sempre assim. E eu sou muito
grato a ele.
O
mago de ar olhou para o chão enquanto o olhar de Riana se tornava mais
questionador. O homem balançou a cabeça e sorriu novamente, como se se
desculpasse e quisesse mudar de assunto.
—
Tem mais algo a perguntar?
Riana
foi até a frente de Ian e pegou a faca que ele havia largado no chão. Com o
olhar brilhante e ao mesmo tempo temeroso, disse:
—
Eu posso tentar?
—
Claro que sim — disse Ian de modo quase carinhoso, dissipando seu espectro com
um leve toque dos dedos, o que estava mais para um comando mental. — Depois te
ensino a fazê-lo sumir. Está disposta a sentir um pouco de dor?
—
Sim.
Diante
da resposta tão segura de Riana, Ian assentiu.
—
Comece quando desejar.
Esta ficando muito boa essa historia, curiosa pra ler a continuação e ver se a Riana vai aprender a parar de acreditar em estranhos bonitões por ai rsrsrsrs :).
ResponderExcluirAwn, muito obrigada! Fico feliz que você esteja gostando, Mylla!
ExcluirHahahaha, todo mundo fica com um pé atrás quando se trata da Riana, e acho que do Ian também. Mas ainda tem muitas coisas pra acontecer! <3
Obrigada pelo comentário, de verdade. =)