O
soldado abriu a porta, que dava para o salão principal do castelo. Era muito
espaçoso e bonito, com decorações belas e simples. Nada muito espalhafatoso,
mas charmoso. Ele seguia com um tapete marrom de bordas douradas até a escada
central, que se dividia em duas mais para cima, levando a dois caminhos do
andar de cima. Olhando para as escadas, Nirina percebeu que todos que a
esperavam estavam ao pé da escada principal. Passou os olhos por todos e
reconheceu um rosto familiar: Zahra.
—
Senhores — ela ouviu a voz de Kevin, alta, chamando a atenção de todos. —
Apresento-lhes Nirina de Sira, a aprendiz de maga clarividente do reino.
Todos
ficaram em silêncio enquanto ela se aproximava. Kevin andou com Nirina até seus
anfitriões, que estavam em fila, um ao lado do outro. A primeira pessoa que se
apresentou a ela foi Zahra, que estava em uma das pontas da fileira.
—
Nirina — ela disse, com uma leve inclinação da cabeça. — Seja bem vinda. Acho
que você já me conhece.
Nirina
se preparou para usar o vocabulário mais formal e educado que havia aprendido
com seu antigo mestre. Como mago da Corte, Arthus sabia exatamente como ela
devia se portar, caso precisasse, algum dia, falar com os senhores do reino.
—
O que é uma honra, senhora Zahra — ela respondeu, com uma leve reverência.
A
próxima mulher era um pouco mais alta que Zahra. Não era atraente, mas era
simpática. Seus cabelos eram longos e escuros. Observou, com curiosidade, que
devia parecer com sua mãe. Usava a túnica que era uniforme dos magos do reino,
azul, de um tecido fosco e elegante.
—
Saudações, Nirina — disse a mulher, com um sorriso carinhoso. — Chamo-me
Selene, e a partir de hoje serei sua mestra em magia de água.
—
É um prazer conhecê-la, senhora Selene. — Limitou-se a dizer, pensando em
Arthus. A mulher a sua frente parecia atenciosa e compreensiva, no entanto, e
ela teve uma boa sensação a respeito da nova professora.
O
próximo da fila era um homem imponente, de ar arrogante. Usava a mesma túnica
que era uniforme dos magos do Rei, azul como a de Selene, mas com bordas
douradas na ponta das mangas e nas bordas da gola em seu pescoço.
—
Nirina — ele disse, seco, em tom sério e sem um sorriso como o dos outros. —
Meus cumprimentos. Chamo-me Martin, sou o líder dos magos do exército do Rei.
Provavelmente trabalharemos juntos em alguns anos.
—
É uma honra, senhor Martin — disse Nirina, contrariada. O homem à sua frente
era extremamente arrogante e nada simpático, e ela sentiu vontade de afinar os
olhos enquanto o encarava. “Espero ansiosa pelo dia em que lhe darei ordens”,
teve vontade de responder, mas disse algo bem diferente: — Espero ansiosa pelo
dia em que trabalharemos juntos.
Seu
próximo anfitrião também era um homem, mas bem diferente de Martin: este a
recebeu com um sorriso caloroso e um aperto de mão firme.
—
Bom dia, Nirina, seja bem vinda — ele disse, olhando-a de forma tão simpática
que ela se obrigou a sorrir. — Sou Reno, líder dos soldados do exército do Rei.
Eu designei Kevin para a senhorita — abriu mais o sorriso, quase rindo. — O que
achou dele, hein? Bom homem, não é?
—
É um prazer e uma honra imensa conhecê-lo, senhor Reno — ela se reverenciou de
leve, divertida pela personalidade do líder. — Com certeza, Kevin é um bom
homem. Obrigada pela escolha.
Atrás
de Nirina, Kevin encolhia-se devagar. Havia pedido ao chefe que não fizesse
menção a nada do tipo. Ele havia dito que não diria nada, mas Reno não
conseguia resistir a uma oportunidade de brincar com seus homens. Quando o
soldado encarou o líder, este deu uma piscadela, sorrindo. Kevin sorriu sem
jeito e desviou o olhar.
O
próximo era alguém que ela conhecia: Rei Nasser. Ela parou a sua frente e fez
uma reverência profunda.
—
Erga-se, Nirina — ele disse, sério. Quando ela a olhou, ele abriu um sorriso. —
Seja bem vinda. Você é uma de nós agora, aja como tal.
—
Muito obrigada, meu senhor — limitou-se a dizer. Devia seguir o que ele havia
dito. — Estou honrada.
Ele
assentiu e ela olhou para a próxima anfitriã, outra mulher: a Rainha Naama. Ela
era diferente do que imaginava. Muito mais séria que o Rei, tinha o olhar
esperto e afiado. Parecia desconfiar de todos, e era mais antipática que seu
marido. Os dois nem mesmo combinavam como casal, ela reparou mentalmente.
—
Saudações, jovem aprendiz — ela disse, sem tratá-la pelo nome. — Seja bem
vinda.
—
Muito obrigada, minha senhora — respondeu. — É uma honra.
—
Bem — disse Nasser, quando percebeu que as apresentações estavam terminadas. —
Agora que está tudo certo, Selene, por favor, leve Nirina até seus aposentos.
Kevin será o responsável por levar suas coisas até seu quarto.
—
Providenciarei roupas adequadas — disse Naama, em tom áspero.
—
Naama, agora não, por favor — o Rei disse, virando os olhos suavemente. —
Existem coisas mais importantes a serem resolvidas.
—
Ela é maga do Reino agora, uma maga clarividente. Não pode andar por aí como se
ainda fosse qualquer uma.
Naama
disse e virou-se para as escadas, começando a subi-las. Nirina foi sábia o
suficiente para manter-se em silêncio enquanto Nasser voltava-se à aprendiz.
—
Desculpe-me, Nirina. Ela teve algumas frustrações no passado que não exatamente
dizem respeito a você e tem dificuldade em superá-las.
—
Está tudo perfeitamente bem, meu senhor — respondeu a aprendiz, andando para o
lado de Selene, que a chamou com um movimento suave da mão. — Obrigada por se
importar.
Nasser
acenou afirmativamente com a cabeça e deixou que Nirina seguisse Selene até seu
quarto. Zahra se aproximou do Rei e chegou bem perto.
—
Parece que Naama ainda não consegue esquecer, não é mesmo?
—
Fale com ela, Zahra — disse o Rei. — Diga que isso não pode interferir na vida
da menina, e que ela terá que se acostumar com a ideia de que precisamos dessa
aprendiz aqui, formada como maga clarividente.
—
Sim, senhor — sorriu Zahra, e em seguida subiu as escadas.
Nasser
mordeu o lábio inferior de leve, percebendo que todos já haviam saído, e subiu
as escadas pouco tempo depois de Zahra.
Selene
guiou Nirina até o lugar que era preparado para os aprendizes de magia do
reino. Era uma casa distanciada do castelo principal, extremamente confortável,
que tinha vários quartos: um para cada aprendiz. Cada quarto tinha três cômodos
pequenos: um quarto de dormir, uma sala de estudos – onde os aprendizes
geralmente tinham aulas individuais – e o banheiro. Nirina gostou do lugar,
apesar de preferir a casa de Arthus, com certeza.
Selene
abriu a porta e logo chegaram os serviçais com os pertences da aprendiz. As
empregadas distribuíram tudo rapidamente nos guarda-roupas e deixaram os
pertences pessoais por conta da nova moradora. Ela organizava as coisas quando
Selene atraiu sua atenção:
—
Então, como está seu mestre, Arthus? — ela perguntou, com o sorriso atencioso
de sempre. Nirina a olhou e continuou a arrumar as coisas, pensativa.
—
Bem — limitou-se a dizer, voltando a organizar.
—
Sabia que — prosseguiu Selene, numa tentativa de estabelecer maior contato com
sua nova aluna — eu fiquei feliz quando soube que você era aprendiz de Arthus?
—
Por quê? — indagou a aprendiz, franzindo o cenho. — Você o conhece?
—
Arthus? — Selene riu, lembrando-se. — Ele foi meu mestre.
—
Sério? — Nirina arregalou os olhos, surpresa. — Isso faz tempo?
—
Um pouco — sorriu, olhando para os lados. — Ele foi meu primeiro mestre, na
verdade. Não chegou a me formar, pois teve que sair. O Rei determinou que ele
não seria mais um mago a seu serviço depois de ter ajudado um...
—
Um soldado justo a fugir do país — completou Nirina, séria. — Arthus me contou
sobre Hazael. Estamos falando do mesmo homem, certo?
—
Sim — Selene inclinou a cabeça, sem abandonar o sorriso. — Arthus lhe contou
tudo sobre ele? Estranho, pois ele nunca falava para ninguém sobre essa
história.
—
Pois é. Ele disse que achou que eu merecia saber um pouco mais sobre seu
passado. Mas esse homem, esse mago chamado Hazael — disse Nirina, parando de
arrumar as coisas por um instante. — Você chegou a conhecê-lo?
—
Sim — respondeu a professora, desempacotando algumas das coisas da aprendiz. —
Já que você sabe tanto sobre essa história, vou te contar mais uma coisa.
Nirina
voltou-se completamente para Selene e se sentou sobre a cama.
—
Na verdade, eu que pedi para Arthus que ajudasse Hazael a fugir de Sira — ela
disse, arrancando um suspiro surpreso da jovem maga. — Eu — Selene sentiu o
rosto esquentar, corando — era apaixonada por Hazael na época, e não queria que
ele fosse pego pelos guardas de Martin.
—
Então... Espere — interrompeu a aprendiz, erguendo uma das mãos — Arthus me
disse que existia um mago de água que odiava Hazael. Esse homem... É Martin?!
—
Exatamente — assentiu Selene. — Os dois não se davam bem, especialmente por
serem magos de fogo e magos de água. Mas não é sempre assim. Eu, como maga de
água, me apaixonei por ele também, que era de fogo. Quando os dois magos são
homens e de elementos opostos, as disputas tendem a ficar mais acirradas.
—
Entendo — disse Nirina. — Quando Arthus me contou essa história, disse que
podia estar errado, mas pensava que a maior parte da perseguição a Hazael havia
acontecido por causa de um mago de água que o odiava. Esse homem é Martin —
Selene confirmou com a cabeça, fazendo-a continuar. — Você acha que Arthus tem
razão?
—
Acho. Martin odiava Hazael o suficiente para querê-lo morto.
—
O que Hazael fez assim de tão terrível para ele?
—
Essa é uma parte da história que você vai ter que esperar um pouco mais para
ouvir, pequena Nirina — disse Selene, com o sorriso afável de sempre. — Mas aos
poucos vamos conversando, e eu vou lhe contando mais sobre cada pessoa que faz
parte da Corte e as minhas histórias. Combinadas?
—
Sim — sorriu Nirina, sentindo uma simpatia imensa pela nova mestra. — Muito
obrigada pela conversa. Vejo que nos adaptaremos bem rápido!
—
Isso é ótimo! — disse, segurando uma das mãos de sua aprendiz. — Fico realmente
feliz. Vou te ajudar a terminar de arrumar tudo. Quer minha ajuda?
—
Seria muito bom — Nirina levantou, voltando a arrumar as coisas.
As
duas ficaram em silêncio por um tempo, silêncio quebrado pela voz de Selene,
que às vezes cantava. Ela tinha uma voz suave, de beleza inigualável, que
tranquilizava a aprendiz. Nirina percebeu que gostava de ouvi-la cantar.
—
Selene — chamou, voltando-se a ela e juntando as mãos na frente do corpo. —
Hazael... Você sabe onde Hazael está?
—
Não sei — mentiu Selene, protegendo o amigo, sem querer revelar o fato de que
havia voltado à Ima. — Por que pergunta?
—
Ele parecia um homem justo. Admiro o fato de ele ter se recusado a matar um
inimigo que implorava pela vida quando estava quase morto. E não gosto de
Martin, desde a primeira vez que o vi hoje cedo.
—
Não se preocupe, Nirina — disse Selene, tentando tranquilizá-la. — Aposto que
Hazael está bem. Ele era esperto o suficiente para fugir de seus perseguidores
e sobreviver.
—
É bom saber disso — ela sorriu, voltando a arrumar as coisas. — E quanto a
Martin? Quem é ele?
—
Martin... — Selene mordeu o lábio inferior, pensativa. — Ele é um homem
ambicioso, que passaria por cima de qualquer um para conseguir seus objetivos.
Ouço dizer que ele inveja o Rei Nasser por ter se casado com a Rainha Naama e
sempre sonhou em tomar seu lugar como governante de Sira, mas podem ser só
rumores. Você deve tomar cuidado com ele. Seja o mais evasiva possível com as
perguntas que ele lhe fizer, e acredite: ele vai te questionar sempre que tiver
a oportunidade. Se tiver dúvidas, Nirina, por favor, fale comigo.
—
Por que o Rei ainda o mantém como líder dos magos de seu exército? — Nirina
franziu o cenho, surpresa. — Por que um cargo tão alto a um homem tão
prepotente? Podia ser alguém como Reno.
—
Hazael diria que é porque o Rei não sabe escolher seus subordinados — riu
Selene, lembrando-se das palavras do amigo de dias atrás. — Mas esqueça,
Nirina. Não cabe a nós julgar as decisões tomadas pelo Rei. Quanto a Reno, acho
que percebeu: nele você pode confiar. É um homem justo, simpático, divertido e
energético. Ele sempre faz uma brincadeira quando passa por você, ou brinca com
seu cabelo. Todos os seus homens o seguem por amor, porque o admiram e o
respeitam. Acho que se eles tivessem que se matar em seu nome, fariam sem
pensar duas vezes. O contrário de Martin: todos os seus homens o seguem por
temor. Acho que se eles tivessem que morrer em seu nome, deixariam que Martin morresse.
Nirina
assentiu e soube que era o suficiente para saber por aquele dia. Sentiu-se
grata, no entanto, por ter uma mestra tão carinhosa e disposta a lhe contar
tanto sobre as coisas.
Selene,
por sua vez, não conseguia parar de pensar em Riana e no fato de que sabia que
as duas eram amigas. Estava ansiosa por encontrar Hazael, Ian e Riana novamente
e poder conversar com eles. Teriam muita coisa para compartilhar, e Hazael
teria algumas surpresas. Sorriu em silêncio ao perceber como a história de
Nirina e Riana parecia se entrelaçar sem que as duas soubessem. Algumas
coincidências eram até mesmo estranhas demais. A mestra desempacotou as últimas
coisas da aprendiz e sorriu, então voltou a cantar.
A historia começou! Personagens sendo apresentados e suas respectivas formas de ser.
ResponderExcluirAcredito que Reno e Kevin ainda vão lutar muito nessa bagunça toda.
Curiosa pra saber sobre mais sobre a rainha!!
ResponderExcluir