Hazael
andou de um lado para outro na sala da casa até que Ian o pedisse para parar. O
mago de fogo estava impaciente, tentando pensar no que fazer.
—
Hazael, fica tranquilo — disse Ian. — No que você está pensando?
—
Alguém disse para Riana ficar longe da Nirina?
—
Não — respondeu Ian, seguido de Selene, que deu a mesma resposta. — Por quê?
Ela me disse que não pretendia encontrar a amiga.
—
Ah é? — Hazael afinou os olhos. — Lembram que magos clarividentes podem sentir
a presença de magos negros? Esqueceram disso, vocês dois?
—
Por que a preocupação, Hazael? — indagou Selene, surpresa.
—
Não é óbvio? Nirina vai sentir algo diferente em Riana como sentiu em você,
Ian. Ela estará em uma situação complicada.
—
Isso é verdade — o mago de ar concordou. — Não havia pensado nisso. Mas, fale a
verdade — continuou, encarando o amigo. — É só isso que está te preocupando?
—
Não — respondeu, seco. — Não é. Estive pensando em ir até a cidade.
—
Para quê, Hazael? — desaprovou Ian, virando os olhos em tom de decepção. — Está
querendo que os guardas te encontrem?
—
Ah — resmungou o mago de fogo, e depois riu — você está querendo dizer que
esses guardas do Rei vão me encontrar? Esses inúteis não conseguem encontrar
algo que está embaixo de seus narizes. Se for Martin ainda no comando desse
bando de idiotas, as coisas não terão mudado em um pouco.
—
Pare de pensar em Martin. Hora ou outra você fala nele, esqueça-o!
—
Esquecer? — disse Hazael, afinando os olhos. — Você está me pedindo pra
esquecer aquele maldito daquele soldado, que dedicou grande parte da sua vida
tentando arruinar a minha? Acha que eu voltei a Sira para quê? Ver como a
cidade de Ima está?
—
Então... — Ian parou, encarando o amigo. — Então o único mago em que você está
verdadeiramente interessado é Martin? E toda aquela conversa sobre ser contra
magos que servem ao Rei?
Hazael
manteve-se em silêncio. Achava-se um tanto tolo às vezes por querer voltar e
acertar as contas com Martin. Nem mesmo sabia se ele ainda estava no comando
dos exércitos do Rei.
—
Selene — chamou a mulher, que o olhou instantaneamente. — Há quanto tempo você
não é chamada para ser mestra de um aprendiz de mago do Rei?
—
Há uns anos, Hazael — ela respondeu, um tanto preocupada com os dois. Eles
raramente discutiam, mas quando começavam era difícil fazer parar. — Por quê?
—
Eu precisava de alguém que pudesse me passar informações de dentro daquela
Corte.
—
Sinto muito em mudar de assunto assim — disse Selene, surpreendendo aos dois
homens —, mas quanto tempo mais vocês pretendem passar nessa casa? Tudo bem que
ela não é um péssimo lugar — ela acrescentou, olhando em volta — mas a minha
casa seria melhor. Por que não passamos essa noite lá enquanto acertamos todos
os detalhes? Nem mesmo sabemos se essa casa tem um dono.
—
Ah, eu não queria que Hazael entrasse em Ima — resmungou Ian, contrariado.
—
Deixe de preocupação, Ian. Hazael é bem diferente do que era naquela época. Os
cidadãos não o conheceram quando soldado, e os guardas do Rei não estão
enfiados em cada beco de cada rua. Um capuz sobre sua cabeça e os moradores ao
redor pensarão que se trata de um viajante.
—
A não ser que o próprio Martin esteja andando pela cidade fazendo rondas, já
que ele seria o único capaz de me reconhecer — riu Hazael —, e eu duvido que
aquele folgado se daria o trabalho. Afinal, ele é muito importante.
Ian
riu enquanto Selene abria um sorriso discreto.
—
Devemos ir? — sugeriu a maga de água, juntando algumas coisas que havia trazido
para a casa.
—
E se Riana decidir vir para cá?— disse Ian, preocupado.
—
Você sempre pensa nela, não é, Ian? — Hazael perguntou em tom de escárnio.
Ian
torceu a boca, desaprovando, e apontou o dedo para o amigo.
—
Pare de insinuar assim as coisas — ele afinou os olhos. — Nem mesmo se atreva a
pensar nisso. Estamos entendidos?
—
Olhe, Selene, como ele ficou bravo — riu novamente enquanto a maga se limitou a
suspirar. — Se eu estivesse cem por cento errado, você teria reagido com mais
indiferença.
—
Hazael... — começou Ian, depois parou, como se lembrasse de algo. — Esqueça.
Isso não vale a pena.
—
Não mesmo — concordou Hazael. — Esqueceu que você sempre perde para mim, tanto
em lutas quanto em discussões?
—
Maldito — riu Ian, jogando o capuz de sua capa sobre a cabeça. — Isso ainda
terá volta.
—
Tive uma ideia bem simples — disse Hazael. — Podemos passar essa noite na casa
de Selene para conversar um pouco melhor e à tarde, quando Riana costuma ir até
lá, nós vamos também. Para não deixá-la sozinha, nem preocupada, já que ela
parece pensar bastante em nós três.
Ian
sorriu. Apesar de irritado e impulsivo, Hazael sempre fora muito inteligente e
observador. Eram características que Ian admirava muito no amigo.
—
Perfeito — disse Ian. — Assim perguntamos também se ela tem alguma informação
para nós.
Os
três reuniram as poucas coisas que tinham e pegaram as estradas laterais para a
cidade de Ima. As coisas de Selene estavam quase todas em sua casa, e Ian e
Hazael, como estavam sempre viajando, tinham poucas coisas. Selene era quem os
ajudava em Ima, dava um lugar para ficar e algumas vezes, roupas. Para Hazael,
a mulher era como um anjo em sua vida.
Não
demoraram muito a chegar, apesar de Hazael ter reclamado a viagem inteira,
dizendo que era longe demais e que estava cansado de andar. Ian suspirara
diversas vezes, tentando aguentar o amigo e Selene apenas sorria com os dois,
que às vezes pareciam dois irmãos pequenos se provocando e brigando.
Quando
a dona da casa abriu a porta, havia uma carta deixada no chão, que tinha sido
jogada sob a porta. Selene a pegou enquanto Ian e Hazael entravam com suas
coisas rapidamente.
Assim
que a maga terminou de ler, sorriu.
—
Hazael — chamou, segurando o papel entre as mãos. — Tenho algo aqui que você
vai gostar.
Hazael
a olhou franzindo a testa, sem dizer nada.
—
É uma carta do Rei, assinada também por Zahra. Disseram que terão uma nova
aprendiz de magia de água e querem que eu seja sua nova mestra. Devo estar na
Corte amanhã de manhã para recebê-la.
Nirina
levantou cedo e começou a levar as malas para a sala, de onde seria mais fácil
pegar e levar. Não imaginou, no entanto, que mandariam uma carruagem até a casa
de Arthus e um guarda apenas para pegar suas malas e carregar. Imaginou então
que seu antigo mestre não iria junto. Conforme ela levava as coisas para a
sala, o guarda as carregava até o transporte em silêncio. Ele era calmo e
parecia confiável, estranhamente simpático apesar do ar sério de competência
que mantinha no rosto. Nirina estava um pouco curiosa a seu respeito.
Não
demorou muito até que todas as suas coisas estivessem prontas. Havia pegado
todas as suas roupas e seus livros e poucos objetos pessoais de importância,
como presentes que havia ganhado de Arthus e de Riana. Quando o guarda anunciou
que estava tudo pronto, ela andou até Arthus, que expressava um sorriso
triste.
—
Então — disse ele, abraçando-a e acariciando seus cabelos — está pronta para
ir?
—
Sim, mestre — respondeu, resistindo à tentação de dizer um “Não”. — Estarei
ansiosa para vê-lo novamente, no entanto.
—
Também estarei, Nirina. Também estarei.
Os
dois acompanharam o guarda até a carruagem, onde o cocheiro esperava. O guarda
abriu a porta para a aprendiz e esperou que ela entrasse. Ela apertou as mãos
de Arthus uma última vez e subiu, olhando para o mestre pela janela.
—
Não me olhe assim, Nirina — ele riu. — Não é um “Adeus”. É um “Até logo”.
Ela
sentiu vontade de chorar, mas decidiu que não faria isso. Manteve-se olhando
para ele, até que Arthus invocou um pouco de água rapidamente e fez espirrar no
rosto dela. Ela riu apesar de ter ficado com raiva de ter caído nessa de novo.
—
Só espere, Arthus — ela afinou os olhos, encarando-o. — Quando eu voltar, você
vai ver o que vou fazer.
Seu
mestre riu enquanto o guarda mantinha um sorriso amistoso no rosto observando
os dois.
—
Esperarei ansioso. Então lutaremos de igual para igual.
—
Posso seguir? — Interrompeu o guarda, cordial.
—
Sim, por favor — disse Arthus, sorrindo para Nirina.
O
guarda entrou na carruagem e fez sinal para o cocheiro seguisse, batendo no
teto suavemente. A aprendiz olhou uma última vez para seu antigo mestre e não
olhou mais para trás quando o veículo se pôs em movimento.
Era
a primeira vez que ela andava de carruagem, e a viagem era agradável. O clima
estava bom: tinha o vento fresco da manhã, mas não estava frio. Gostou de olhar
pelas janelas observando as árvores. Pensou nas estradas da floresta e na casa
da clareira, e se algum dia descobriria o que sentira a respeito dela.
Pela
primeira vez, no entanto, sentiu-se completamente sozinha. Arthus era sua única
família. Riana era uma boa amiga, mas Arthus estava sempre presente, cuidando
dela desde seus cinco anos de idade. Sentiria falta de seu sorriso amigável,
das conversas à noite, dos ensinamentos e dos bolos com chás à tarde. Perguntava-se
sem parar quem seria seu novo mestre, e se se dariam bem. Estava sentindo o
coração pesado, mas sabia que isso mudaria em breve. Logo teria várias coisas
para estudar, afinal, precisaria aprender duas magias: a de clarividência e a
de água, seu elemento principal. Apoiou o queixo na mão enquanto olhava
entediada para a floresta, imaginando como seria sua chegada à Corte.
—
Ansiosa, senhorita Nirina? — perguntou o guarda, olhando-a de modo comovido.
Nirina se assustou um pouco com a quebra inesperada do silêncio, mas sorriu
diante da tentativa do guarda de entretê-la e do tratamento formal. Deveria se
acostumar, no entanto. Ela seria uma das pessoas mais importantes dentro
daquele palácio nos próximos dias.
—
Um pouco — respondeu Nirina, voltando seu olhar a ele. — Você sabe meu nome —
notou, surpresa. — Posso saber o seu?
—
É claro — disse, polidamente. — Meu nome é Kevin, e fui designado para ser seu
guarda a partir de hoje. Sabe como é o Rei, acha melhor e devo seguir suas
ordens.
—
Isso é um tanto estranho — admitiu, sorrindo para Kevin. — Não estou acostumada
a esse tipo de tratamento, vou precisar me habituar.
—
Tenho certeza que a senhorita conseguirá isso rápido — sorriu Kevin, amigável.
— Deve estar cheia de expectativas.
—
Eu estou. Um pouco triste por ter deixado minha casa, mas tenho certeza de que
o tempo há de resolver isso.
—
Um bocado sábia, apesar da pouca idade — disse o guarda, com uma leve
reverência. — Isso será de serventia na Corte.
Nirina
sorriu enquanto observava as árvores da floresta, que passavam rápido e agora
ficavam cada vez mais distantes. Distanciavam-se das estradas laterais e se
aproximavam da cidade de Ima. Quando a aprendiz reparou, sentiu o coração
acelerar.
—
Estou nervosa, Kevin — revelou, sentindo que poderia conversar com o guarda
sobre seus sentimentos.
—
Isso é natural, senhorita, não se preocupe. Embora eu deva dizer que a Corte
ficou agitada após receber as notícias através de seu mestre, e todos os
esperam. Provavelmente o Rei, a Rainha, e os magos mais importantes do reino a
estarão esperando junto com Zahra, a clarividente do reino.
—
Todos?! Todos eles estarão me esperando quando chegar?
—
Sim — sorriu Kevin. — Terá que se habituar como disse, senhorita Nirina. Você
agora é um deles. Uma das pessoas mais importantes do reino.
A
aprendiz mordeu o lábio inferior de leve. Não havia passado por sua cabeça que
a comitiva de recepção seria assim tão grande.
—
Como — franziu a testa, curiosa. — Como a Rainha Naama é?
—
Não sei se sou a melhor pessoa a falar sobre isso, senhorita, minhas desculpas.
Será melhor que tire suas próprias conclusões.
—
Kevin — ele a olhou, atencioso. — Posso lhe pedir um favor?
—
Uma ordem, minha senhorita — respondeu. — Lembre que sou seu servo a partir de
agora.
—
Por favor — disse, desacostumada com o tratamento extremamente formal. —
Esqueça o “senhorita” e chame pelo nome. Nirina está ótimo.
—
Tem certeza?
—
Kevin, por favor — sorriu. — Se quiser que seja assim em frente aos outros,
tudo bem. Mas quando estivermos sozinhos, pode ser um pouco menos formal?
—
Se assim desejar, Nirina — ele retribuiu o sorriso.
De
repente, a aprendiz se sentiu cheia de um carinho imenso por ele. Parecia uma
boa pessoa, fiel e dedicado, além de extremamente educado. Esperava que
pudessem se dar realmente bem nos próximos dias.
—
Muito obrigada, Kevin — ela olhou pela janela, constatando que já estavam
andando dentro da cidade.
—
Nosso destino está próximo — advertiu Kevin, com um sorriso energético. — Está
preparada?
—
Estou — respondeu, retesando-se no assento. — Graças a você — acrescentou. O
guarda a havia tranquilizado bastante. Seria diferente se tivessem mandado
alguém que não tivesse dito uma palavra durante a viagem inteira. — Muito
obrigada, Kevin.
O
guarda se sentiu um pouco surpreso, mas inclinou levemente a cabeça.
—
Às suas ordens — pausou, começando a dizer “senhorita” —, Nirina.
O
coração da jovem maga acelerou novamente quando ela percebeu que a carruagem
havia parado. Kevin abriu a porta e esperou que ela descesse. Estavam parados
dentro dos domínios do palácio do Rei, e uma grande passarela estava à sua
espera até que alcançassem as portas do Castelo.
—
Devemos entrar — disse Kevin. — Suas coisas serão retiradas por serviçais e
levadas até seus aposentos em breve. Queira me acompanhar, por favor.
Nirina
assentiu em silêncio e andou atrás de Kevin, achando que seu coração ia saltar
pela boca e cair ali mesmo, antes que alcançasse as portas do Castelo. Olhou em
volta observando a beleza simples do gramado imenso e vivamente verde, tentando
acalmar a respiração.
Quando
Kevin chegou à porta, olhou para Nirina.
—
Posso abrir? Estarão todos a sua espera. Prepare-se para um ritual de
apresentações, que não será tão demorado.
—
Vamos, Kevin — ela assentiu. — Quanto mais rápido, melhor.
*-* um palacio tao bonito e ela vai desmaiar ali mesmo *-*
ResponderExcluirSim!! Hahaha~ tadinha! Amanhã posto o próximo, aí você poderá ver a reação da Nirina!
ExcluirBeijos, obrigada pelo comentário! s2
"Já chegamos?... Caramba, to cansado de andar já... Ian pra que serve mesmo sua magia do ar, se não dá pra todos irmos voando?... ¬¬"
ResponderExcluirHazael The Badass! xD
Nirina vai ter um "affair" com Kevin, talvez, maybe, com certeza?
PS: Quando começa as tretas? *,,,,,*
Eu adorei o Kevin, ele faria um bom par com a Nirina!!! :)
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